segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Alguns princípios para não se terminar de ler um texto
PRIMEIRO PRINCÍPIO: Se você tem que reler o título.
"O título deve funcionar como uma manchete de jornal, permitindo que o leitor tenha
uma compreensão imediata do conteúdo do restante do texto e possa decidir
prontamente se é um assunto do seu interesse ou não. Neste sentido, é fundamental que
o título contenha a conclusão mais importante do texto, porque pelo menos a idéia
central do artigo é transmitida. Um exemplo: “Estudo da ação da cafeína durante o
exercício em seres humanos sobre os mecanismos da fadiga e da percepção do
esforço1” seria bem substituído por “Ingestão de cafeína não aumentou a tolerância de
homens no exercício até a exaustão”.
Muitas vezes a complexidade do título revela uma erudição forçada, que procura
mostrar intimidade com temas sofisticados e que exigem muita inteligência e cultura.
Por exemplo, tente compreender com apenas uma leitura o seguinte título: “Do Corpo-
Máquina ao Corpo-Informação: o pós-humano como horizonte biotecnológico”. O que
isto quer dizer, realmente? Numa segunda ou terceira leitura sou tentado a fazer um
exercício de decomposição do título, que me leva a supor que alguém andou criando
previamente os conceitos de corpo-máquina e corpo-informação (daí as maiúsculas,
imagino). Portanto, a primeira metade do título me alerta para o fato de que estou
entrando num território reservado aos iniciados, criando tanto mais uma atmosfera de
admiração quanto menos compreendo imediatamente os tais conceitos. A seguir, surge
mais um deles: pós-humano. Cresce a minha admiração, oh! Quanto terei ainda a
aprender, Santa Ciência! O que seria, para os autores o conceito de pós-humano?
Talvez o planeta Terra desabitado pela civilização predatória que o levou ao
aquecimento global? Ou quem sabe seria o que restou do humanismo estraçalhado pela
hegemonia competitiva que assola o mundo globalizado? Avançando nesta dúvida, pelo
menos suponho que consigo entender a palavra horizonte como uma metáfora do futuro
e chego ao termo final: biotecnológico. Desconfio imediatamente que se trata daquele
aglomerado de mentes suspeitas em ambiciosas artimanhas genéticas para transformar o
meu antigo e caseiro arroz com feijão em milionários hambúrgueres de isopor. Ou
seriam os fabricantes de vacinas contra a AIDS? Assim, passo alguns minutos perdido
nestas reflexões sem saber ao certo do que se trata o texto, mas seguramente
impressionado pelo fato de estar diante de algo complexo e supostamente inteligente.
Então, decido não ler este artigo porque ele não foi escrito para eu entender. Se
o autor desejasse que mais pessoas como eu, um leitor médio, fossem capazes de
compreender sem hesitações as suas supostas idéias, o autor não as ocultaria por trás da
erudição e linguagem cifrada.
Outro cuidado necessário, que aprendi recentemente2, deve ser o de evitar os
títulos que sugerem que os problemas são finitos e podem ser sucintamente enumerados
(Sete passos para o sucesso empresarial, As cinco normas da qualidade total, Os dez
pilares da excelência esportiva, etc.). A primeira versão do presente texto, por exemplo,
circulou entre meus alunos e colegas com o título que começava por “Dez princípios...”.
Decidi muda-lo depois que um de meus alunos de pós-graduação se referiu a ele como
os “Dez mandamentos para se parar de ler um texto”. Meu aluno deve ter imaginado
que Eu havia entregado este texto a Moisés."
Autor: Prof. Luiz Oswaldo Rodrigues (LOR)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Arquivo do blog
-
▼
2008
(16)
-
▼
agosto
(9)
- Pesquisa Científica - O que é isso?
- Critério para Classificação de Periódicos no Siste...
- Tutorial Pubmed: buscando por assunto
- Tutorial Pubmed: buscando por assunto e autor
- Tutorial Pubmed: buscando pelo nome do autor
- Alguns princípios para não se terminar de ler um t...
- Alguns princípios para não se terminar de ler um t...
- Alguns princípios para não se terminar de ler um t...
- Sem título
-
▼
agosto
(9)

Nenhum comentário:
Postar um comentário